Parar para seguir!

Quando Adam nasceu e recebemos o diagnóstico sentimos muito medo. Medo de que ele tivesse alguma doença congênita que colocasse sua vida em risco, ou que o fizesse sofrer, medo de que ele não pudesse aprender mais de um idioma, ou não pudesse ter autonomia, medo de tudo aquilo que desconhecíamos. Porém, com o passar dos dias e com os resultados de todos os exames chegando negativos nosso coração foi se abrandando, também tivemos tempo de ler muito sobre a trissomia do cromossomo 21 e descobrir que sim, crianças com SD podem aprender mais de um idioma. Assim pouco a pouco fomos deixando as inquietudes de lado e pudemos curtir a total mudança de vida que um bebê traz, principalmente quando é o primogênito. Mas teve um medo que não se foi, que permaneceu ali, latente às vezes, um pouco mais visível outras, o medo do preconceito, da exclusão, da rejeição.

Felizmente nos primeiros cinco anos de vida, raros foram os momentos que tivemos que nos defrontar com atitudes discriminatórias. Essa realidade mudou no ano passado, quando após uma reunião no jardim de infância (1)  descobrimos que Adam estava sofrendo bullying e as pessoas que deveriam evitar essa situação, eram por fim as responsáveis, pois não tentaram incluí-lo e sim integrá-lo.

Essa reunião foi uma das partes mais difíceis de nosso caminho com Adam, raiva, impotência, revolta, tristeza, vários foram os sentimentos que nos invadiram enquanto escutávamos aquele pessoal falando do quanto nosso menino não fazia parte daquele espaço. No começo tentamos dialogar, ponderar, mostrar os possíveis caminhos diante das dificuldades relatadas, mas logo percebemos que nossas palavras não os alcançavam, elas eram devolvidas sem ao menos chegar, não era só falta de conhecimento, era, principalmente falta de vontade. Foi como um filme ruim que você não tem como interferir no roteiro, o que lhe resta a fazer é levantar-se e ir embora do cinema. E foi o que fizemos, com uma única certeza, Adam não voltaria para lá no ano seguinte. Mas para onde ele iria? Faltava pouco mais de um mês para o término do ano letivo e conseguir uma vaga em jardim de infância não é uma tarefa fácil em toda Alemanha e aqui não seria diferente.

Após algumas chamadas telefônicas fomos descobrir que o jardim em que ele estava era, naquela época, pasmem, um dos mais inclusivos da cidade, pelo menos era um dos que colocava em sua proposta pedagógica a inclusão. Nos últimos anos o processo de inclusão tem avançado no nosso Estado, se quando chegamos, há cinco anos, as escolas podiam recusar-se a receber um aluno “inclusivo”, hoje, essa já não é mais a realidade, porém, mais do que nunca ficou claro que aceitar aluno com deficiência não é suficiente para fazer de uma instituição de fato inclusiva. Após duas semanas de procura, nos restou a última opção, o espaço de educação infantil do Centro de Pedagogia Especial (2) da cidade e foi com o coração partido que optamos por matriculá-lo lá no seu ano de pré-escola (3).

O outono de 2016 nos chegou de uma maneira bastante intensa. Se essa estação sempre foi uma das minhas preferidas, agora a estávamos vivendo em seu sentido mais amplo, pois precisávamos deixar morrer toda as nossas certezas e nossas crenças para possibilitar o renascimento de novas perspectivas na nossa luta. Se nas primeiras semanas eu sentia um misto de arrependimento e culpa, por não haver tentado mais, por não ter lutado mais pelo espaço inclusivo de Adam, a medida em que o tempo foi passando fomos percebendo como aquele espaço dito segregador era o que mais o estava incluindo.

Adam voltou a sorrir, voltou a cantar, a se comunicar, voltou a ter amigos e pedir pelo jardim de infância nos finais de semana. Se no antigo espaço eles não acreditavam nele, fazendo-o sentir-se excluído, agora suas necessidades eram levadas em conta com ideias e alternativas que pudessem trabalhar suas dificuldades. Aos poucos fomos percebendo que ele passou a olhar mais nos nossos olhos, voltou a se concentrar, a gostar de aprender. Geralmente ele ia de ônibus, mas nas vezes em que o levávamos havia uma linda recepção, as crianças vinham esperá-lo na porta e mesmo sem ele falar, eles intercambiavam sorrisos e o recepcionavam como totalmente pertencente ao grupo.

Sei que lutamos por um mundo todo mundo junto misturado, mas quando esse todo mundo junto não mistura de verdade, é pior que a segregação, pois ele sempre estará tentando conseguir algo que ninguém acredita ser ele capaz.

Naquele momento conseguimos ver que apesar do fato de estar numa escola especial não significa que ele estava deixando de viver a inclusão, pois cada criança lá era diferente dentro de suas limitações, muitas nem deveriam estar lá, mas estavam, e tínhamos certeza de que podiam aprender com Adam e também podiam ensiná-lo muito. E quando o ano letivo terminou e percebemos que ele recuperou tudo o que havia perdido em um espaço chamado “inclusivo”, tivemos certeza de que aquele lugar, pelo qual sempre tivemos tanto preconceito, se mostrou ao fim de tudo o lugar que mais o respeitou pelas suas diferenças.

Assim, quando chegou a primavera e tivemos que decidir para qual escola Adam iria, sabíamos exatamente o que queríamos. Queríamos um espaço em que as pessoas o respeitassem do jeito que ele é, que não tentassem curar suas estereotipias ou fazê-lo comportar-se de acordo com o comportamento de outras crianças, uma escola que o avaliasse dele para com ele, que tivesse paciência para ensiná-lo, para esperá-lo, que tivesse alegria em vê-lo progredindo e com isso o incentivasse. Visitamos três escolas, uma totalmente regular, uma regular com grupos de crianças especiais e uma totalmente especial. Optamos pela última e ao contrário do que sempre pensamos, após assinarmos aquele papel voltamos para casa com o coração tranquilo.

Há duas semanas Adam finalmente entrou para a escola, aqui eles fazem uma recepção em que os alunos do segundo ano dão boas-vindas aos que chegam e estes carregam um cone, cheio de doces e materiais escolares, funciona como um ritual de passagem. Apesar de não nos dizer com palavras sabemos que Adam entendeu e muito o grande passo que estava dando e ficamos felizes quando ao final da primeira semana percebemos que ele confia em quem o está guiando.

Continuamos sonhando e lutando pela inclusão, continuamos achando que todo mundo junto e misturado é o melhor para qualquer criança e que esse é um caminho sem volta, mas existe momentos que é preciso avaliar em que parte desse caminho se está e saber se o que ele exigirá de nosso filho realmente o fará feliz. Infelizmente aqui em nossa cidade estamos na fase de abrir picadas e eu estou disposta a carregar foices e enxadas e trabalhar junto, abrindo caminhos para as crianças que chegam agora, há muitas, com pais que desejam o mesmo que a gente, e também para Adam no futuro, ele ainda está dando os primeiros passos nessa longa caminhada, muita coisa pode mudar nos próximos anos, mas no momento, não podemos, em hipótese alguma, permitir que façam nosso filho infeliz em nome desse sonho.

  1. O sistema de ensino na Alemanha é bastante diferente do sistema brasileiro. Aqui não se usa termos como escola ou educação infantil para as crianças na fase anterior a escola, pois não existe preocupação com a educação formal. Por isso esses espaços são chamados de Kindergarten, que na tradução literal significa jardim de infância.
  2. Na Alemanha as escolas voltadas para alunos com deficiência intelectual ou comprometimento comportamental são chamadas de Sonderpädagogisches Centrum (centros de pedagogia especial) que trabalham além do ensino equivalente ao ensino fundamental e médio do Brasil, a formação profissional de seus alunos.
  3. Aqui as crianças entram na escola com 6 anos completos. No último ano de Kindergarten essas crianças são chamadas de Vorschule (pré-escola), e é quando algumas atividades começam a ser direcionadas para a escola.

 

Descrição #PraCegoVer -  Montagem de quatro fotos de Adam. Nas duas fotos de cima ele leva blusa cinza com detalhes em azul claro, usa óculos redondos de aro azul. Em ambas segura um cone azul com letras coloridas. Na primeira ele olha de lado e na segunda olha para a câmera. Nas duas fotos de baixo ele leva calça e blusa azul marinho. Na primeira ele está descendo do ônibus com um sorriso no rosto, na segunda ele espera na porta enquanto a irmã a abre. Ela está de costas e leva jaqueta rosa.

Seis

Quando Adam nasceu eu não sabia quase nada sobre a síndrome de Down, como acontece com a maioria das famílias que recebe o diagnostico após o nascimento. Ainda na maternidade mergulhei em livros, blogs, fóruns (a maioria em inglês, já que no Brasil havia muito pouca coisa) em busca de respostas a tantas perguntas.

Logo no início tive uma certeza, trabalharia em prol da autonomia do meu filho para que um dia ele pudesse escolher seus próprios caminhos, entretanto, como também pode passar com muitas famílias, esperei e trabalhei para que meu menino fosse uma criança super Down, aquela que tem muito pouco atraso no desenvolvimento físico, motor e cognitivo, acreditava que so assim ele seria aceito, só assim poderia ser feliz. Com esse objetivo coloquei-o em todas as atividades possíveis desde muito cedo,  além de participar de grupos que davam um enfoque diferente à alimentação e à suplementação. Nessa época olhava a cada semana uma tabela dos marcos de desenvolvimento para ver em que ponto meu filho estava em comparação com as criancas típicas e com SD.

Não sei dizer exatamente quando começaram as angústias, o certo é que com o passar dos meses fui percebendo que meu filho, apesar de todo estímulo, não era uma criança “precoce”. Os meses iam passando e muitas coisas que a media das crianças com SD já conseguia fazer Adam ainda não lograra. E como é muito comum entre tantas mães, comecei a sentir-me culpada, comecei a achar que eu não o estava estimulando o suficiente, ou cuidando de sua saúde adequadamente. Nessa época deixei de comparar seu desenvolvimento com o de crianças típicas.

Não sei em que momento a ficha caiu, a certo é que hoje, seis anos depois, me sinto completamente diferente, mais tranquila, mais centrada. Não lamento a angústia que vivi naquele tempo, afinal o que sou e o que penso hoje é o resultado daquele momento, faz parte do mesmo caminho e talvez se eu não tivesse vivido tudo aquilo hoje eu não veria a vida do jeito que vejo. Também não me arrependo de nada que fiz por ele nesse tempo, afinal continuo acreditando na importância das terapias, da estimulação precoce e da suplementação, além de uma dieta mais centrada nas particularidades de sua condição física, nesse aspecto nada mudou. O que mudaram foram minhas expectativas em como superar o fato de que meu filho tem, em alguns aspectos, um atraso de desenvolvimento maior que o de algumas crianças com SD da mesma idade. De repente eu percebi que achar que toda criança com SD estimulada e bem nutrida poderá andar antes dos dois ou aprender a ler aos quatro, cinco anos, seria o mesmo que no passado faziam, dizendo que todas as crianças com SD não poderiam aprender a ler e escrever. Nesses seis anos tenho aprendido cada vez mais a respeitar o tempo do meu filho, e sim, ele precisa de muito tempo, mas ele consegue, eu continuo acreditando nele, no seu potencial, mas se no passado eu deixara de comparar seu marco de desenvolvimento com crianças neurotipicas, hoje eu já não o comparo com criança alguma. Nem todas as crianças, por melhores terapias que tenham, ou por melhor que sejam sua dieta e sua suplementação, são iguais. Frustrar-me porque meu filho não consegue ler aos quatro anos como o filho da minha amiga é ser igualmente cruel com ele, e comigo, como são os que não querem ensiná-lo porque acham que ele não pode aprender.

Hoje nos dois estamos de aniversário, ele seus seis anos de vida e eu nos meus seis anos de mãe. Quando iniciamos esse caminho eu tinha convicção que seria fundamental para seu amplo desenvolvimento e crescimento, o que eu não tinha ideia era do quanto ele seria fundamental para o meu crescimento e o meu desenvolvimento.

Parabéns meu filho, continuo lutando para que você chegue lá, mas não precisa ser no tempo dos outros, será onde e QUANDO você quiser chegar.

Descricao da imagem: slide com tres fotos de Adam que usa oculos de armacao azul, veste calca preta e jaqueta azul, alem de gorro em varios tons de azul e cachecol bege. Na primeira foto Adam esta corrento, na segunda contemplativo, olhando o horizonte e na terceira fazendo careta e mostranto a lingua.

“Síndrome de Down é a melhor coisa que aconteceu comigo.”

Enquanto estava em uma loja, Robb Scott ouviu um menino perguntando ao pai uma simples pergunta: “O que é síndrome de Down?” o pai do menino disse a seu filho que é uma doença de “não saber nada.”

Scott — o pai de um garoto de cinco anos de idade com síndrome de Down — quis corrigir a declaração do homem; Mas, por razões que ele não pode explicar, ele hesitou.

Quando o pai de 41 anos de Truro, Nova Escócia, saiu da loja e entrou no carro, ele tinha decidido que não conseguiria viver com a sua decisão de não ter falado nada. Então ele pegou o seu smartphone e gravou, em lágrimas, um vídeo de cinco minutos que foi viral desde que foi postado no sábado.

O vídeo começa com Scott recontando sua experiência dentro da loja, antes ele explica sua crença de que a síndrome de Down não é uma doença.

Síndrome de “Down é, literalmente, uma das coisas mais belas que já aconteceu na minha vida, ” ele diz a câmara. “Ela é divertida, é brilhante, é incrível, é engraçada, é gentil, é amada, é aconchegante.”

Seu filho, Turner, tem síndrome de Down, disse Scott.

“Pessoas com síndrome de Down são grandes professores,” ele acrescentou, com os olhos marejados de lágrimas. “Ela não é uma doença, não é uma doença. … Nem é uma deficiência.  ”

Não há duas pessoas com síndrome de Down iguais, de acordo com a Biblioteca Nacional de Medicina dos Estados Unidos. A condição — que ocorre quando alguém nasce com uma cópia extra do cromossomo 21 — é muitas vezes acompanhada de dificuldades físicas e intelectuais, tais como uma menor estatura, problemas de saúde e dificuldades de aprendizagem, de acordo com o NLM.

No vídeo, Scott observa que ele quase se aproximou do pai na loja para fazer seu comentário diretamente. Ele não achou que o que o homem disse aquilo por ser mesquinho, mas sim por ignorância. Em última análise, disse Scott a ABC News, o que pareceu mais problemático para ele foi que ele havia perdido um momento que poderia ser usado para educar uma geração mais jovem.

Esta criança estava realmente perguntando, ‘O que é Síndrome de Down?’ — e esta criança é uma folha em branco, “disse Scott. “Eu o deixei aprender algo que não é verdade. Eu deixei seu pai definir isso para ele e isso me bateu forte. Ele era uma criança — uma criança que tem idade do meu filho; e eu poderia corrigi-lo, não de forma rude, e eu não o fiz. ”

Como reflexo sobre o momento de aprendizado perdido, Scott disse que foi compelido a expiar sua indecisão e “karmicamente reescrever o que aconteceu.”

Perto do final do seu vídeo, ele desafia a ideia que as pessoas que leem mais devagar ou não correm tão rápido têm uma deficiência.

Síndrome de Down, ele diz, é “a melhor coisa que aconteceu comigo”.

“Eu acredito que as pessoas são professores e alunos”, ele disse. “Nós somos os dois. Nós temos a capacidade de ensinar as coisas, e nós estamos aqui para aprender as coisas. Um homem bem-educado não tem mais a ensinar do que o meu filho. Ele tem algo diferente para ensinar, mas ele não tem mais a ensinar. ”

Scott contou ao The Washington Post na quinta-feira que ele jamais esperava que o vídeo fosse ter tanta popularidade, mas ele tem sido encorajado pela resposta.

“Se 10 pessoas o ouviram, então eu posso me sentir melhor”, disse ele. “Eu pensei que talvez cinco ou 10 pessoas pudessem compartilhar o vídeo. Mas o que aconteceu foi realmente surpreendente. Eu ainda não tenho palavras porque este vídeo parece ter batido em cheio, profundamente.” Ele acrescentou: ” Eu sinto como se 1,5 milhões de pessoas me dissessem  ‘Esta bem’.”

 

Texto original publicado no The Washington Post. Tradução livre feita especialmente para este Blog.

Ao final da tradução o link da publicação original, onde também pode ser visto o vídeo.

 

https://www.washingtonpost.com/news/to-your-health/wp/2016/02/26/why-this-father-says-down-syndrome-is-the-best-thing-that-ever-happened-to-me/

Recordar nos faz viver outra vez – a notícia!

Quando eu ainda vivia no Brasil, tive uma ex-colega que teve uma filha. Logo ao ver as primeiras fotos da menina nas redes sociais percebi que ela tinha traços de SD, mas como a mãe nunca nos falou nada eu e nossos os amigos nunca comentamos sobre o assunto com ela. Algum tempo mais tarde a encontrei e pude perceber que nossa impressão estava correta, a garota tinha trissomia 21, mas uma vez mais não houve algum comentário a respeito e a conversa foi bastante rápida, o tempo suficiente para que não surgissem perguntas.

Quando Adam nasceu lembrei-me dessa época e tive a certeza que não queria a mesma situação para mim e para meus amigos, afinal se eu desejava que o mundo o respeitasse por suas diferenças eu deveria mostrá-lo ao mundo, falar sobre a síndrome, dar oportunidade para as pessoas conhecerem e compreenderem esse universo.

Durante dias pensei em várias maneiras de contar a eles, queria que fosse algo verdadeiro, pessoal e ao mesmo tempo tranquilo e descontraído. Por fim resolvi escrever uma “carta”, na verdade um e-mail, dando a notícia e também dizendo o quanto estávamos felizes por sermos pais.

Outro dia, buscando um e-mail nos arquivos eu a encontrei e ao relê-la pude viver novamente aqueles primeiros dias, as angústias, os medos, as certezas, as expectativas  e, como acontece sempre que pensamos em um momento que nos fez aprender, senti saudade. Assim resolvi compartilhar um pouquinho de nossas vidas e do que fomos há cinco anos.

Abaixo está o e-mail da forma como o escrevi, mas como muitas coisas mudaram com relação ao meu conhecimento e minha percepção, farei ao final do texto algumas observações.

 

Londres, 16.02.2011.

Carta a meus amigos,

Sempre escutei que a chegada de um filho muda totalmente nossas vidas, mas esse é o tipo de conhecimento que só a vivência nos faz realmente entender o seu significado. A chegada do Adam não poderia ser diferente principalmente quando logo ao nascer os médicos nos disseram que ele possivelmente era portador(1) de Síndrome de Down. Claro que a notícia nos chocou, fazia pouco menos de uma hora que eu havia vivido essa experiência maravilhosa de pôr um filho no mundo e querendo ou não sempre idealizamos um futuro perfeito para nossos bebês, uma espécie de realização de tudo a aquilo que imaginamos ser o melhor para sua felicidade. Quando um pediatra te diz que possivelmente teu bebê não vai ter esse futuro “planejado”,  imediatamente vem a insegurança, e agora?

Hoje, passado o susto e já com o resultado final da contagem cromossômica (Adam realmente tem uma cópia extra do cromossomo 21), essa pessoa que idealizamos para o Adam adulto, antes mesmo de ele nascer, deu lugar à certeza de que a coisa mais importante na vida de um ser humano é ser amado, ser feliz e fazer os demais felizes e isso são conquistas  acessíveis a qualquer um, independente de sua condição física ou alteração genética.

Nas primeiras semanas nos concentramos em sua saúde, graças a Deus temos um bom sistema de saúde aqui (5) e assim que ele nasceu foram providenciados todos os exames para detectar possíveis doenças típicas de portadores da Síndrome e até agora todos deram negativos, ele tem uma excelente saúde e tem crescido e ganhado peso como uma criança “normal” .(2)

Agora o passo seguinte será participar de toda e qualquer atividade que busque melhorar seu desenvolvimento, fisioterapia, fonoaudiologia, socialização com outros pais, acompanhamento e monitoramento de sua saúde. Mais uma vez temos sorte, a estrutura do bairro que moramos no atendimento de pessoas com necessidades especiais é bastante boa e nos fornece todos esses recursos pelo sistema de saúde do País.

Nas últimas semanas tenho concentrado meu tempo entre amamentar, trocar fraldas e ler livros sobre a Síndrome de Down e tenho me surpreendido de como houve avanços no entendimento dessa Síndrome e no desenvolvimento das pessoas portadoras dela. A cada dia, e a cada leitura, tenho a certeza de que ter um filho com necessidades especiais (3) é uma missão divina(4) e me sinto bastante agradecida que Deus nos confiou essa tarefa e me deu um parceiro maravilhoso para ajudar-me a superar todas as dificuldades que surgirão e comemorar os progressos que Adam tem feito e fará a cada dia.

Agradeço desde já o apoio que sei que vou receber de todos os meus queridos amigos e também fico aberta para receber qualquer informação sobre o tema, pois a partir de agora estou transformando-me  numa especialista no assunto .:)

Queria falar mais sobre essa nova fase de nossas vidas, mas tenho que ficar por aqui, pois em 15 minutos começa outra sessão – fralda/  mamá /nanar– mas prometo que tentarei enviar notícias mais frequentemente, e para os que não têm facebook e Orkut, algumas fotinhos por e-mail .

Um grande abraço,

Deisy, Habib e Adam.

 

Algumas horas após enviar o e-mail começaram a surgir as respostas, as quais também me alegraram muito reler agora. Muitas mensagens foram lindas, um verdadeiro afago na alma, outras demonstraram como a sociedade ainda tem medo de falar da trissomia do cromossomo 21, um amigo disse lamentar muito, pois a gente nunca espera receber um filho doente, oi? Lembro-me que pensei em responder o e-mail perguntando que parte do texto ele não havia entendido, mas resolvi deixar para lá, mensagens assim foram menos de um por cento e achei que não valia o esforço, preferi escrever aos amigos que me mandaram palavras lindas e mostraram uma maturidade espiritual fantástica, nesse momento agradeci a Deus pelo fato de meu caminho haver cruzado o de pessoas tão especiais e que apesar de distantes estavam tão presentes nessa nova fase da minha vida.

Com imensa felicidade percebi que muito do que vivemos hoje é o resultado do que desejamos e lutamos lá naquele comecinho tumultuado, que a certeza de que estaríamos aqui batalhando para que Adam tenha autonomia e possa decidir seu futuro já veio junto com a descoberta de um novo mundo, o mundo da maternagem. Além disso, foi muito gratificante perceber que as expectativas que tínhamos nos primeiros dias de vida dele foram cumpridas, Adam hoje com cinco anos é exatamente a criança que naquele dia em que escrevi a carta visualizei: um menino saudável, alegre, esperto, carinhoso e acima de tudo feliz.

 

1. Desde a convenção da ONU sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, ratificada pelo Congresso em 2008 com força constitucional, o termo portador caiu. Pessoa com deficiência  é o termo correto e legal desde a Convenção. Quem tem deficiência pode portar bengala, cadeira, mas a deficiência continua lá. Na época em que escrevi o e-mail isso já tinha acontecido, mas eu não tinha a menor ideia.

2. Usar o termo normal já me causou estranhamento na época, tanto que coloquei entre aspas, hoje em dia quando me refiro a crianças que não têm SD eu digo crianças típicas, afinal ser diferente é o normal.

3. Também a expressão necessidades especiais não é  um termo correto, o melhor sempre é dizer, pessoas com deficiência (nunca pessoas deficientes, afinal a deficiência é uma característica da pessoa, não a pessoa em si, meu filho tem SD, não é a síndrome).

4. Hoje também tenho pensamento diferente com relação à missão divina. Ter um filho com SD não me faz uma mãe especial, todas as mães são especiais e todos os filhos são presentes de Deus. Comecei ter isso claro já nos primeiros meses de vida de Adam, mas depois da chegada da Clara tudo isso teve muito mais luz.

5. O sistema de saúde inglês não foi toda aquela maravilha que pensávamos na época, realmente eles têm um trabalho de estimulação precoce, mas infelizmente a maioria dos profissionaisainda nivela por baixo, em vários momentos tive a sensação de que o pensamento era “ para alguém que tem síndrome de Down está ótimo” e em função da dinâmica do programa, nós pais não temos autonomia na escolha dos profissionais que acompanham nossos filhos.

 

Monica Xavier - February 2, 2016 - 4:38 pm

Lindo seu texto e a forma como você lidou com a SD do Adam.
Melhor ainda o acolhimento que recebeu dos seus amigos tão queridos.
Pena aquela sua amiga lá de trás, que não teve algu que a acompanhasse no começo da jornada.

Zil - February 2, 2016 - 5:23 pm

Vcs são lindos demais e mostram que a vida deve ser super curtida e divertida!!! Amo poder acompanhar suas histórias, mesmo que de longe… mas quem sabe na próxima vinda consigo ir vê-los e conhecer a princesinha!!!
Bjkas em todos

zenaide - February 2, 2016 - 6:49 pm

Parabéns,amiga! Você é que é e sempre foi especial pra mim.
Muito bom compartilhar com outras pessoas sua vida e suas experiências como mãe que diga-se de passagem são ótimas. Um beijo em seu coração

tecendoavida - February 21, 2016 - 2:50 pm

Muito obrigada querida, voce sempre foi muito querida para mim tambem.

tecendoavida - February 21, 2016 - 2:51 pm

Obrigada Zil, voce foi uma das pessoas que me mandou um e-mail muito carinhosos quando te contei que Adam nasceu com SD, voce sempre morara em nossos coracoes. bjs

tecendoavida - February 21, 2016 - 2:53 pm

E verdade Monica, infelizmente muitas mulheres acabam pasando essa fase tao complicada soinhas, muitas sao ate abandonadas pelos parceiros, que nao tEm coragem de enfrentar essa nova realidade. Teu comentario me fez pensar em escrever um post falando sobre isso, sobre como acolher uma mae que nao tem o acolhimento dos seus.Beijos.

E agora você já tem cinco!

No dia em que você chegou trouxe um outro sentido, outro sorriso, outra força e outra busca para o que temos vivido até então,

E agora você tem cinco, já sabe o que quer e o que representa no mundo.

 

Muitos foram os desafios que nos deram animo em vez de cansaço;

Muitas foram as lutas, os recuos, as tentativas de acertar o passo;

Muitos foram os momentos em que o mundo se mostrou mais risonho;

Muitas foram as manhãs em que a gente sorriu ao perceber que o que vivemos não foi um sonho;

 

E agora você já tem cindo, já sabe o que quer e o que representa no mundo.

Seja feliz filho e irmão amado, teu brilho e energia o guiarão sempre, aonde você for, onde você decidir ficar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Kelly - January 20, 2016 - 5:53 pm

Lindoooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooooo, mto emocionada!!!!

tecendoavida - February 21, 2016 - 2:53 pm

beijos querida.