O maravilhoso caminho de gestar!

Descricao da imagem: cegonha branca carregando bebe com manto de cor verde.

Desde que Habib e eu começamos a falar em filhos a ideia de ter dois foi algo natural, afinal ambos tivemos muita alegria com nossos irmãos e queríamos proporcionar o mesmo para nossos filhos. Entretanto quando Adam nasceu com SD, uma pontinha de insegurança começou a crescer, e se o próximo bebê também tivesse a síndrome? Será que teríamos estrutura para cuidar dos dois? O nosso receio era que um dos nossos filhos não tivesse o apoio suficiente para se desenvolver e por essas e outras coisas deixamos aquele sonho guardado na caixa dos desejos.

Um dia, quando Adam acabara de completar um ano de vida, eu estava vendo fotos dos tempos de namoro e encontrei algumas que tiramos em Paris. Lembrei-me daquela viagem que por pouco não fizemos, pois eu estava com medo de viajar uma vez que na mesma semana um avião caíra na altura dos Pirineus em função de uma forte turbulência. Nós faríamos a mesma rota. Por fim meu marido conseguiu convencer-me de que a probabilidade de passar o mesmo era menor da que eu sair na rua e um avião cair na minha cabeça. Embarcamos, mas que viagem tensa! Primeiro o avião atrasou, ficamos quase uma hora dentro da aeronave esperando a decolagem, a informação era de que o avião tinha problemas na hidráulica. – Na hidráulica! Exclamou meu marido, e pela primeira vez vi preocupação em seus olhos. Resolvido o problema, assim que decolamos o piloto avisou que passaríamos por uma zona de forte turbulência e, portanto o serviço de bordo sofreria um atraso. Senti muito medo, pensava em como seria triste se nossa história, que havia apenas começado, terminara ali, nas mesmas montanhas que um dia aprendi a conhecer pelas palavras de Jose Saramago. Fechei os olhos e passei a viagem escutando as batidas do meu coração, eram tão fortes que não me permitiram escutar o aviso do comandante de que a zona de perigo havia passado (e que apesar dos prognósticos o voo havia sido super tranquilo) e o início da movimentação dos comissários de bordo havia começado. E mesmo escutando meu marido dizer que iria ao banheiro eu não mudei de posição, permaneci ali, imóvel, de olhos fechados e só os abri quando o avião aterrissou.

Quando recebemos um filho com uma deficiência, vem junto com ele um sinal de “apertem os cintos”, acho normal, ao sabermos que há perigo de turbulências no caminho, a questão é quanto deixamos de usufruir do voo, quando deixamos o medo dominar nossos sentidos ao ponto de não percebermos que apesar dos prognósticos, o caminho pode ser tranquilo e que turbulências são normais e não necessariamente terminam em tragédia. Na volta daquela viagem tive coragem de olhar pela janela e ver que lindo são os Pirineus visto de cima, imagem que eu não desfrutei na ida porque fiquei com medo das previsões. Olhando para Adam que brincava tão à vontade vi que maravilhoso era aquele filho e a vida que nos proporcionara, havia momentos difíceis? Sim. Turbulências fortes que nos prenderam por alguns momentos em nossos assentos? Também, mas além disso e com muito mais frequência aquele voo nos proporcionou ver o sol brilhando acima das nuvens e a possibilidade de chegar mais facilmente a lugares maravilhosos, nos quais nunca antes havíamos estado. Naquele momento pensei em que tanto temia? Ter outro filho tão adorável quanto ele? Será que desistir do sonho de ser mãe outra vez, por medo do caminho, não seria repetir o que fiz naquela viagem, tendo a certeza de que dessa vez eu não teria uma segunda oportunidade de apreciar a vista lá fora?

E foi aí que voltamos a pensar em um segundo filho, o sonho guardadinho lá na caixa dos desejos começou a criar asas e voltou a ser vivido, esperado e finalmente se tornou realidade. Em poucos meses teremos um bebezinho em nossos braços, a maravilhosa aventura de sermos pais novamente já começou e a cada dia nos faz reviver sensações já sentidas e nos proporciona novas experiências, afinal, agora a possibilidade de ter um novo bebê com trissomia 21 não nos assusta. Em função de minha idade nos foi oferecido o teste para detectar uma alteração cromossômica, aqui temos a oportunidade de fazer o não invasivo, entretanto optamos pelo não. Nada vai mudar o que temos, o que sentimos e o que queremos.

Hoje aquela foto do quartier Latin que me trouxe tantas belas recordações e nos fez voltar a viver esse sonho está em um porta-retratos, junto com as demais importantes da família. Cada vez que a olho penso em como foi linda aquela viagem, talvez a mais bonita do nosso tempo de namoro, momentos os quais eu poderia não ter vivido, apenas por temer as turbulências do caminho.

 

 

Descricao da imagem: foto noturna do quartier Latin em Paris.

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