A criança e seus modelos de comportamento

Uma das coisas que mais falo para novas mães e pais de crianças com SD é: evitem comparações, entretanto eu mesmo cometi esse erro nos primeiros meses de vida do nosso pequeno. Lembro-me que logo após ele nascer o pessoal do departamento de intervenção precoce nos deu uma pequena apostila, uma espécie de guia, dividida por habilidades, na qual a gente podia acompanhar o desenvolvimento do bebê. Nesse guia havia uma tabela dizendo o que normalmente uma criança típica faz com determinada idade e também a média em que crianças com SD fazem. No começo eu levei isso a serio e toda semana lá estava eu fazendo apontamento e me angustiando, na minha concepção Adam sempre estava muito atrás das outras crianças e isso me deixava muito preocupada. Então um dia a TO que acompanhava Adam me disse, deixe isso para lá, eu sou contra esse material, cada criança é única, temos que observar os avanços do Adam tendo ele mesmo como ponto de partida, não outras crianças. E foi quando guardei o material num canto e passei a estimulá-lo e deixá-lo que ele se desenvolvesse a sua maneira. Desde esse dia prometi que nunca mais faria comparações, mas de vez em quando me pego cometendo esse deslize.

Outro dia fomos num encontro de familiares de crianças com SD, ao todo são oito crianças mais ou menos da idade do Adam. Durante o encontro uma mãe comentou que seu filho (uma semana mais novo que o nosso pequeno) já era um expert em aparelhos eletrônicos, já sabia qual controle liga a TV, qual liga o router, qual liga o DVD, já sabia colocar o DV e selecionar o canal para poder assistir ao que quer, já sabia marcar a pausa ou voltar para rever algo de que ele gostava. Fiquei maravilhada pelo menino, mas também fiquei receosa pelo meu filho, Adam sabe apertar o botão que liga a TV e o DVD, mas suas capacidades eletrônicas terminam aí. Não comentei nada com Habib, mas senti uma pontinha de angústia, será que estou estimulando Adam o suficiente? Fiquei com essa pulguinha atrás da orelha até chegar a casa, mas aí os afazeres de um dia que geralmente começa somente após o pequeno ir para a cama, me fizeram esquecer o tema, pelo menos naquele momento.

No dia seguinte, um frio e chuvoso sábado, pensei em que fazer para distrair Adam, já que o programinha tradicional dessas manhãs consiste em ir ao centro, tomar um suco ou café, comprar frutas e verduras no mercado de rua e o que Adam mais adora, ir à beira do rio para dar pão aos patos, mas com essa chuvarada teremos que mudar de planos, pensei. Após o café da manhã coloquei no meio da sala uma caixa com instrumentos musicais variados (alguns em madeira, outros em plástico, fomos adquirindo desde que ele nascera), pus para tocar um CD de musicoterapia que trouxemos de Londres e que é ótimo, pois trabalha muito sons e movimentos, e pensei em fazer uma music session. Assim que iniciamos a atividade o telefone tocou, deixei-o brincando e fui atender, era uma amiga e enquanto conversávamos percebi que Adam reconhecia cada instrumento que ouvia. Quando no CD vinha ruído de chocalho, ele pegava o chocalho, quando vinha som de tambor, ele pegava um tambor e tocava, de repente veio um solo de piano e ele pegou seu pianinho e começou a tocar, mas minha surpresa maior foi quando começou a tocar alguns instrumentos de sopro, clarinete e sax e ele soube exatamente qual era qual e mais, arrumava os dedinhos direitinho nos buraquinhos dos instrumentos. Nesse momento comecei a chorar, não só de emoção, mas de vergonha, vergonha por ter duvidado de sua capacidade, simplesmente porque ele não sabe operar um controle remoto. Mas como poderia, pensei naquele momento, ele raramente assiste à televisão e raramente vê seus pais assistindo, como ele saberia uma coisa dessas? Em contrapartida, Adam vê quase todos os dias seu pai tocando piano, sax e clarinete, ele frequentemente “toca” junto com o papai, ele frequenta um grupo de música para crianças e ele sempre escuta jazz, por que é nosso estilo de música preferido, e consequentemente seu ouvido está acostumado ao som de sax e clarinete.

Esse episodio me fez refletir, uma vez mais, em como a maternidade nos ensina, como apesar de tantas leituras, de tantas experiências, nunca estamos pronto, sempre haverá um momento de fraqueza, de incerteza, de angústia, mas também como saímos desses passos em falso mais fortes, mais preparados para o passo seguinte. Agora, mais do que antes, tenho a convicção de que ele está cada vez mais aberto para aprender, para copiar modelos, atitudes, para imitar o que ele vê ao seu entorno. Promover um ambiente cooperativo, saudável e feliz será talvez a melhor forma de fazer com que ele supere essa busca pelo padrão tão imposto pela sociedade na qual vivemos. Os desafios continuam,  e saber manter o equilíbrio entre o estímulo e a liberdade para que ele seja o que quiser ser, será fundamental para que ele se mantenha essa pessoa alegre, comunicativa e segura de si que já é.

 

Descricao da imagem: fotografia. Adam sentado, de calca verde e blusa azul, sorri e faz movimentos de bater palmas.

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