Na batucada da vida.

A música contribui para a formação harmoniosa da alma. Platão

Sempre tive uma relação muito forte com a música, apesar de não saber tocar nada. Minha mãe sim era a artista da família, tocava violino, sabia cantar e incentivou na família o contato frequente com a música e seus ritmos. Lembro com bastante alegria das rodas de violão nas noites quentes de verão lá do Oeste de Santa Catarina, meu irmão no violão, meu pai acompanhando a batucada na caixinha de fósforos e minha mãe puxando as cantorias, acompanhada pelos demais filhos e visitantes. Canções de ninar, canções folclóricas, choro, samba, bolero, tango, bossa nova e MPB, tudo entrava nas nossas gostosas serestas “bajo la luna”.

O tempo passou e o destino fez que eu conhecesse minha cara metade atuando no palco de um clube de jazz em algum lugar da Espanha e de lá seguimos, ele cantando e compondo e eu me encantando com o reencontro de um passado extremamente musical. Desde o primeiro dia de nossa vida em comum, a música ocupou um importante papel.

E foi nesse contexto que Adam se desenvolveu, nasceu e cresce. Esse contato frequente e intenso com ritmos e melodias tem trazido imensos benefícios no seu desenvolvimento, e quando leio pesquisas que relacionam a música e aumento de habilidades meu coração se enche de alegria, pois isso é o tipo de atividade que não precisamos nos esforçar, ele é vivenciado naturalmente aqui em casa.

Outro dia uma amiga me enviou por e-mail um artigo que falava do papel da música no desenvolvimento cognitivo das crianças. Nele, cientistas da Escola de Medicina de Harvard (EUA) e da Universidade de Jena (Alemanha), revelavam que, ao comparar cérebros de músicos e não músicos, os do primeiro grupo apresentavam maior quantidade de massa cinzenta, particularmente nas regiões responsáveis pela audição, visão e controle motor (apud SHARON, 2000).

Segundo esses autores, tocar um instrumento exige muito da audição e da motricidade fina das pessoas. O que estes autores perceberam, e vem ao encontro de muitos outros estudos e experimentos, é que a prática musical faz com que o cérebro funcione em rede: o indivíduo, ao ler determinado sinal na partitura, necessita passar essa informação (visual) ao cérebro; este, por sua vez, transmitirá à mão o movimento necessário (tato); ao final disso, o ouvido acusará se o movimento feito foi o correto (audição). Além disso, os instrumentistas apresentam muito mais coordenação na mão não dominante do que pessoas comuns. Segundo Gaser, o efeito do treinamento musical no cérebro é semelhante ao da prática de um esporte nos músculos.

Sei que esse contato com instrumentos de forma diária não é possível para todas as crianças, por isso vale lembrar que há outros estudos apontando que, mesmo se o contato com a música for feito por apreciação, isto é, não tocando um instrumento, mas simplesmente ouvindo com atenção e propriedade (percebendo as nuances, entendendo a forma da composição), os estímulos cerebrais também são bastante intensos. Ao mesmo tempo em que a música possibilita essa diversidade de estímulos, ela, por seu caráter relaxante, pode estimular a absorção de informações, isto é, a aprendizagem.

No campo da neurolinguística e da fonoaudiologia a música em suas varias manifestações também tem sido usada como terapia para melhorar o desenvolvimento da fala e da dicção. Existe uma vasta bibliografia mostrando que muitas crianças com SD conseguem cantar antes mesmo de falar e isso dá a elas depois de adolescentes ganhos nas estruturas linguísticas e uma melhor dicção.

Adam tem no momento três anos e meio e seu vocabulário começa a crescer, ele ainda não consegue formular frases com muitas palavras, entretanto já sabe cantar estrofes inteiras de canções, tanto em alemão como em português. Percebo que isso tem ajudado diariamente a melhorar a pronuncia e desenvolver capacidades de comunicação, além, claro, de trazer um ar mais alegre ao ambiente, pois como já diz o ditado, quem canta, seus males espanta.

Click aqui e veja Adam cantando e tocando piano com o pai.:)

https://www.youtube.com/watch?v=ik9DoSZOL6g

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