Parar para seguir!

Quando Adam nasceu e recebemos o diagnóstico sentimos muito medo. Medo de que ele tivesse alguma doença congênita que colocasse sua vida em risco, ou que o fizesse sofrer, medo de que ele não pudesse aprender mais de um idioma, ou não pudesse ter autonomia, medo de tudo aquilo que desconhecíamos. Porém, com o passar dos dias e com os resultados de todos os exames chegando negativos nosso coração foi se abrandando, também tivemos tempo de ler muito sobre a trissomia do cromossomo 21 e descobrir que sim, crianças com SD podem aprender mais de um idioma. Assim pouco a pouco fomos deixando as inquietudes de lado e pudemos curtir a total mudança de vida que um bebê traz, principalmente quando é o primogênito. Mas teve um medo que não se foi, que permaneceu ali, latente às vezes, um pouco mais visível outras, o medo do preconceito, da exclusão, da rejeição.

Felizmente nos primeiros cinco anos de vida, raros foram os momentos que tivemos que nos defrontar com atitudes discriminatórias. Essa realidade mudou no ano passado, quando após uma reunião no jardim de infância (1)  descobrimos que Adam estava sofrendo bullying e as pessoas que deveriam evitar essa situação, eram por fim as responsáveis, pois não tentaram incluí-lo e sim integrá-lo.

Essa reunião foi uma das partes mais difíceis de nosso caminho com Adam, raiva, impotência, revolta, tristeza, vários foram os sentimentos que nos invadiram enquanto escutávamos aquele pessoal falando do quanto nosso menino não fazia parte daquele espaço. No começo tentamos dialogar, ponderar, mostrar os possíveis caminhos diante das dificuldades relatadas, mas logo percebemos que nossas palavras não os alcançavam, elas eram devolvidas sem ao menos chegar, não era só falta de conhecimento, era, principalmente falta de vontade. Foi como um filme ruim que você não tem como interferir no roteiro, o que lhe resta a fazer é levantar-se e ir embora do cinema. E foi o que fizemos, com uma única certeza, Adam não voltaria para lá no ano seguinte. Mas para onde ele iria? Faltava pouco mais de um mês para o término do ano letivo e conseguir uma vaga em jardim de infância não é uma tarefa fácil em toda Alemanha e aqui não seria diferente.

Após algumas chamadas telefônicas fomos descobrir que o jardim em que ele estava era, naquela época, pasmem, um dos mais inclusivos da cidade, pelo menos era um dos que colocava em sua proposta pedagógica a inclusão. Nos últimos anos o processo de inclusão tem avançado no nosso Estado, se quando chegamos, há cinco anos, as escolas podiam recusar-se a receber um aluno “inclusivo”, hoje, essa já não é mais a realidade, porém, mais do que nunca ficou claro que aceitar aluno com deficiência não é suficiente para fazer de uma instituição de fato inclusiva. Após duas semanas de procura, nos restou a última opção, o espaço de educação infantil do Centro de Pedagogia Especial (2) da cidade e foi com o coração partido que optamos por matriculá-lo lá no seu ano de pré-escola (3).

O outono de 2016 nos chegou de uma maneira bastante intensa. Se essa estação sempre foi uma das minhas preferidas, agora a estávamos vivendo em seu sentido mais amplo, pois precisávamos deixar morrer toda as nossas certezas e nossas crenças para possibilitar o renascimento de novas perspectivas na nossa luta. Se nas primeiras semanas eu sentia um misto de arrependimento e culpa, por não haver tentado mais, por não ter lutado mais pelo espaço inclusivo de Adam, a medida em que o tempo foi passando fomos percebendo como aquele espaço dito segregador era o que mais o estava incluindo.

Adam voltou a sorrir, voltou a cantar, a se comunicar, voltou a ter amigos e pedir pelo jardim de infância nos finais de semana. Se no antigo espaço eles não acreditavam nele, fazendo-o sentir-se excluído, agora suas necessidades eram levadas em conta com ideias e alternativas que pudessem trabalhar suas dificuldades. Aos poucos fomos percebendo que ele passou a olhar mais nos nossos olhos, voltou a se concentrar, a gostar de aprender. Geralmente ele ia de ônibus, mas nas vezes em que o levávamos havia uma linda recepção, as crianças vinham esperá-lo na porta e mesmo sem ele falar, eles intercambiavam sorrisos e o recepcionavam como totalmente pertencente ao grupo.

Sei que lutamos por um mundo todo mundo junto misturado, mas quando esse todo mundo junto não mistura de verdade, é pior que a segregação, pois ele sempre estará tentando conseguir algo que ninguém acredita ser ele capaz.

Naquele momento conseguimos ver que apesar do fato de estar numa escola especial não significa que ele estava deixando de viver a inclusão, pois cada criança lá era diferente dentro de suas limitações, muitas nem deveriam estar lá, mas estavam, e tínhamos certeza de que podiam aprender com Adam e também podiam ensiná-lo muito. E quando o ano letivo terminou e percebemos que ele recuperou tudo o que havia perdido em um espaço chamado “inclusivo”, tivemos certeza de que aquele lugar, pelo qual sempre tivemos tanto preconceito, se mostrou ao fim de tudo o lugar que mais o respeitou pelas suas diferenças.

Assim, quando chegou a primavera e tivemos que decidir para qual escola Adam iria, sabíamos exatamente o que queríamos. Queríamos um espaço em que as pessoas o respeitassem do jeito que ele é, que não tentassem curar suas estereotipias ou fazê-lo comportar-se de acordo com o comportamento de outras crianças, uma escola que o avaliasse dele para com ele, que tivesse paciência para ensiná-lo, para esperá-lo, que tivesse alegria em vê-lo progredindo e com isso o incentivasse. Visitamos três escolas, uma totalmente regular, uma regular com grupos de crianças especiais e uma totalmente especial. Optamos pela última e ao contrário do que sempre pensamos, após assinarmos aquele papel voltamos para casa com o coração tranquilo.

Há duas semanas Adam finalmente entrou para a escola, aqui eles fazem uma recepção em que os alunos do segundo ano dão boas-vindas aos que chegam e estes carregam um cone, cheio de doces e materiais escolares, funciona como um ritual de passagem. Apesar de não nos dizer com palavras sabemos que Adam entendeu e muito o grande passo que estava dando e ficamos felizes quando ao final da primeira semana percebemos que ele confia em quem o está guiando.

Continuamos sonhando e lutando pela inclusão, continuamos achando que todo mundo junto e misturado é o melhor para qualquer criança e que esse é um caminho sem volta, mas existe momentos que é preciso avaliar em que parte desse caminho se está e saber se o que ele exigirá de nosso filho realmente o fará feliz. Infelizmente aqui em nossa cidade estamos na fase de abrir picadas e eu estou disposta a carregar foices e enxadas e trabalhar junto, abrindo caminhos para as crianças que chegam agora, há muitas, com pais que desejam o mesmo que a gente, e também para Adam no futuro, ele ainda está dando os primeiros passos nessa longa caminhada, muita coisa pode mudar nos próximos anos, mas no momento, não podemos, em hipótese alguma, permitir que façam nosso filho infeliz em nome desse sonho.

  1. O sistema de ensino na Alemanha é bastante diferente do sistema brasileiro. Aqui não se usa termos como escola ou educação infantil para as crianças na fase anterior a escola, pois não existe preocupação com a educação formal. Por isso esses espaços são chamados de Kindergarten, que na tradução literal significa jardim de infância.
  2. Na Alemanha as escolas voltadas para alunos com deficiência intelectual ou comprometimento comportamental são chamadas de Sonderpädagogisches Centrum (centros de pedagogia especial) que trabalham além do ensino equivalente ao ensino fundamental e médio do Brasil, a formação profissional de seus alunos.
  3. Aqui as crianças entram na escola com 6 anos completos. No último ano de Kindergarten essas crianças são chamadas de Vorschule (pré-escola), e é quando algumas atividades começam a ser direcionadas para a escola.

 

Descrição #PraCegoVer -  Montagem de quatro fotos de Adam. Nas duas fotos de cima ele leva blusa cinza com detalhes em azul claro, usa óculos redondos de aro azul. Em ambas segura um cone azul com letras coloridas. Na primeira ele olha de lado e na segunda olha para a câmera. Nas duas fotos de baixo ele leva calça e blusa azul marinho. Na primeira ele está descendo do ônibus com um sorriso no rosto, na segunda ele espera na porta enquanto a irmã a abre. Ela está de costas e leva jaqueta rosa.

Sem comentários

Seu email nunca será publicado Preenchimento obrigatório *

*

*