Meine geliebten Großeltern

 Avós podem muito

Texto escrito por Evaristo Eduardo de Miranda e Liana John (*)  -

Perguntaram a Sofia, uma menina especial de nove anos, o que ela gostaria de ser quando crescesse. Ela respondeu: – Eu gostaria de ser avó ! Ao ser interrogada sobre o porquê dessa idéia, ela completou: – Porque as avós escutam, compreendem. E além do mais, a família se reúne inteirinha na casa deles. Os avós podem muito quando um casal tem um filho deficiente, mas nem sempre recebem a devida atenção, nem lhes são dadas as oportunidades adequadas para manifestar seus dons.

A revista trimestral francesa Sombra e Luz (Ombres et Lumières), de inspiração cristã e dedicada as pessoas especiais e seus familiares e amigos, editou recentemente um número (116) dedicado ao papel dos avós junto as famílias que têm filhos especiais. A questão foi tratada sob diversos pontos de vista, sempre destacando a valiosa presença dos avós nesses casos.

Trata-se de uma reflexão muito rica. Na França existe, até, um serviço de orientação psicológica específico para os avós, cujos filhos tiveram uma criança trissômica. Neste artigo apresentamos – à luz de nossa experiência – um resumo de alguns dos temas e assuntos abordados na revista, especialmente dos artigos da Dra. Marie-Odile Réthoré, colaboradora e continuadora do trabalho do Professor Lejeune, no Instituto de Progênese em Paris, entre outros.

Sob o impacto da notícia

Diante de um diagnóstico pré ou pós natal de síndrome de Down, frequentemente os jovens pais se confiam aos seus pais, buscando um reconforto afetivo, uma escuta atenta e, de certa forma, a referência de valores que banharam suas infâncias.

Se a pressão da área médica ou de outras pessoas é muito forte em favor de um aborto, o diálogo entre mãe e filha pode ter um papel considerável – num sentido ou no outro – mesmo se a decisão final é do casal.

Quando a criança nasce, os avós tendem a envolver o jovem casal e o bebê de uma presença afetiva reforçada. Mas não se pode esquecer que eles sofrem também a prova moral e espiritual, intolerável, ao ver esse pequeno ser inocente e sem defesa, atingido física e mentalmente. Ao anunciar o fato, os pais deveriam ressaltar a chegada do neto, da neta, que tem nome, que é uma pessoa única e querida, e não apresentar aos avós uma anomalia genética.

Para os avós, o nascimento de um bebê com trissomia pode romper uma série de sonhos familiares, de continuidade, de fertilidade, de linhagem e de patrimônio familiar. Os avós vêm seus filhos e filhas desesperados, desestabilizados, revoltados e muitas vezes se sentem impotentes, inúteis. Temem pelo futuro de suas famílias.

Alguns perdem a coragem de fazer perguntas sobre o assunto ou de propor aos filhos seus serviços. Temem ser indiscretos, reavivar uma ferida, complicar a vida do casal, já tão complicada! Mesmo nas visitas a terapeutas, é comum os avós segurarem as crianças no colo, as distraírem para que os pais possam falar livremente, mas eles não formulam uma só pergunta. Escutam, discretamente. Quanta coisa gostariam de perguntar, quantas respostas desejariam ouvir, mas os avós ficam em silêncio.

Muitos esperam ser chamados para ajudar o casal de alguma forma, e quando nada vêm, eles se voltam sobre si mesmos, angustiados, muitas vezes com mágoa, remorso e até rancor. Desenvolvem um sentimento de inutilidade, de não servir mais para nada.

Outros sentem que se tornam um peso ainda maior na vida dos filhos, agora com outro, pesadíssimo, para carregar. Ocultam seus problemas de saúde, financeiros, psicológicos… beirando a irresponsabilidade. Falam menos de si e saem de cena para, pretensamente, não sobrecarregar os filhos.

Outros ainda se preocupam sobre o futuro equilíbrio do casal, receiam uma separação, temem pelos outros netos… chegam a desejar ou sugerir que o bebê seja encaminhado para alguma instituição especializada.

Alguns poucos avós vivem processos de rejeição profunda. Sem contato com a criança, sem vê-la, sem acariciá-la, se limitam a reconhecer que são avós de uma patologia e não de uma pessoa. Tomam distância. Como dizia um avô: “Suas explicações são boas, podem chamar isso como vocês quiserem, mas essas crianças são uma calamidade”. Alguns declaram que aquela criança não é sua neta!

Convocados para ajudar

Os excessos dos avós podem ocorrer. Tanto no sentido de uma superproteção intervencionista, como num distanciamento demasiado, até por timidez. Nisso os pais podem atuar, de forma recompensadora.

É dever dos pais de lhes indicar livros, revistas e artigos que possam esclarecê-los, ajudá-los… inclusive leituras que os pais não tiveram tempo de ler. Que eles informem os próprios pais sobre determinado assunto. Que eles encontrem por si mesmos respostas para muitas perguntas.

É extremamente válido receber a criança em casa, se os avós se sentem capazes. De lhes propor, com delicadeza, de segurar a criança… e se organizar do ponto de vista prático para que os avós possam ficar um pouco com a criança, ajudando e participando de pequenas atividades.

Os pais devem poder contar com os avós, com sua experiência de vida e do sofrimento e sobretudo com sua capacidade de abrir um grande coração para essas crianças deficientes, que nunca os esquecerão. É comum o jovem trissômico lembrar e rir das histórias que lhe contavam os avós, até em sua idade adulta. É frequente também que o jovem ou a jovem trissômica possa ajudá-los, fazendo e levando compras para eles ou com eles e colaborando em pequenas tarefas.

Para as crianças especiais, a morte dos avós é extremamente dolorosa e, em geral, a primeira experiência com essa dura realidade. Esse tema e essa passagem também devem ser preparados no caso das crianças especiais. Aliás, todos devem se preparar, já que face ao mistério da morte, eles não são mais deficientes do que nós.

Outro aspecto diz respeito aos irmãos, primos… a chamada fratria. Não é fácil ter um irmão ou primo deficiente. Muitos meninos e meninas não ousam fazer determinados comentários aos pais. Eles tem ciúmes e vergonha… É muito mais fácil falar de tudo isso, ao longo de um passeio sozinho, com o avô ou jantando a boa comida da avó.

Se o sofrimento dos avós é grande, também é imensa sua paciência e sua ternura. Eles já amaram tanto e sofreram tanto que saberão encontrar, no dia a dia, a força da palavra e do gesto que torna possível o compartilhar.

Nós conhecemos casos de avós que suprem, material e educativamente, as crianças trissômicas, devido ao desaparecimento dos pais, a separação do casal ou mesmo dada a extrema juventude da mãe. No Brasil, esse papel pode assumir uma importância decisiva para o futuro da criança.

No plano espiritual, os casos de presença supletiva dos avós são muito mais frequentes, mesmo se isso supõem uma “neutralidade atenta” dos pais. São os avós que ajudam a criança especial (e as outras) nos seus passos intuitivos na busca de Deus. São eles quem lhes ensinam as primeiras orações, lhes contam histórias sagradas e os levam nas missas, cultos etc.

Entre um intervencionismo desequilibrado e uma discrição excessiva, a maioria dos avós se deixa guiar pela “inteligência do coração”. Mas eles desejam – mais ou menos conscientemente – serem ajudados e guiados nessa estrada difícil. Eles gostariam de encontrar outros avós de crianças deficientes, assim como os pais o fazem… Tudo para ajudar melhor essa pequena criança, que não é de sua responsabilidade, mas que eles amam tanto! Os pais podem – com jeitinho – proporcionar essas ocasiões.

Escutar, compreender e reunir

Mesmo nas situações em que há pouco a fazer, os avós podem muito. Ao acompanhar casos gravíssimos de cardiopatias ou leucemia, nos momentos em que qualquer ação parece impossível, são os avós que rezam. A eles são pedidas orações. Os avós são intercessores maravilhosos junto a Deus. E “a misericórdia de Deus se estende sobre os filhos dos seus filhos” (Salmos 102, 17).

Ao desejar ser avó, Sofia resumiu perfeitamente três das principais capacidades dos avós: escutar, compreender e reunir. Os avós escutam. Eles têm tempo. Se aposentados, seu ritmo de vida diminui. Enquanto pai e mãe trabalham, os avós estão disponíveis. O pai e a mãe levam os filhos para escola correndo, avisando que estão atrasados, pedindo para andarem logo… Com os avós, eles caminham tranquilamente. Seus passos estão harmonizados. Uma das graças dos avós, ao acolher nossas crianças, é a de lhes dedicar um tempo de admiração, maravilhamente… Eles saboreiam as perguntas das crianças, compartilham suas pequenas alegrias, ouvem suas queixas e tristezas, mágoas e injustiças…

Os avós compreendem. A discrição dos avós é capaz de guardar os segredos dos adolescentes, as aventuras dos jovens, suas confidências dolorosas… muitas vezes negadas aos ouvidos dos pais. Os pais são a lei, os avós são o sonho. Eles são frequentemente um espaço de tolerância e aceitação, capazes de compreender tudo e todos.

E finalmente, os avós reúnem a família. Suas casas são locais encantados onde ocorrem as celebrações natalinas, a Páscoa, as passagens de ano… lugares onde se saboreiam pratos diferentes. Hoje em dia, essas reuniões se tornam mais raras e difíceis, com as famílias nucleares e seus infinitos afazeres. Mas a família ampla é um dom, permite a criança especial de tomar consciência de suas raízes, de participar de uma memória comum, de uma herança de gerações. Essa experiência convida a ampliar a vida comunitária, a solidariedade nas dificuldades e passagens difíceis. Os avós tem essa graça de manterem – até onde é possível – os laços familiares. Às vezes só se percebe isso, quando eles não estão mais aqui. Mas o vivido na infância, na casa dos avós, é uma marca para o resto da vida.

É evidente que nenhuma generalização é possível. Existem avós isolados em clínicas e casas de geriatria. Existem avós sem condições físicas ou psicológicas de participar da vida dos filhos e netos. Existem avós isolados e segregados. Mas para a maioria deles, escutar, compreender e ser um traço de união parece uma agradável missão. Eles não podem, nem devem, ser marginalizados das informações e da convivência com os netos especiais. Os avós vão buscar – e entregam às nossas crianças especiais- tesouros que eles não possuem! A força do amor e do desejo são de um infinito poder. Ao contrário do que alguns pais pensam, os avós podem muito.

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(*) Dr. Evaristo Eduardo de Miranda é doutor em ecologia, professor da USP, pesquisador do Núcleo de Monitoramento Ambiental da EMBRAPA, conselheiro da Fundação Síndrome de Down e autor dos livros “Água, Sopro e Luz – Alquimia do Batismo” e “Agora e na Hora – Ritos de passagem à Eternidade” (Ed. Loyola). É conselheiro do site http://www.ecof.org.br

mir@cnpm.embrapa.br

Liana John é jornalista profissional desde fevereiro de 1977, tendo se especializado em Ciência e Meio Ambiente a partir de 1983. Assumiu o posto de “repórter Internet” da Agência Estado em 1995.

Texto extraído do site http://www.portaldafamilia.org/artigos/artigo060.shtml

 

 

 

Observando o ninho.

Clique no play para escutar a homenagem que pai e filho fizeram para a mamãe.

Música, piano e arranjos: H.B. Elias/ Letra: Adam Jacques Benedikt Aguiar e Silva  Elias

 

Quando eu ainda estava grávida do Adam, gostava de tomar um solzinho, lendo um livro (geralmente sobre maternidade) num dos tantos parques de Londres. Eram dias de calor e lembro-me da preguiça gostosa que me fazia parar a leitura de tempos em tempos e observar a natureza ao redor. Certo dia eu me sentei à sombra de uma árvore e observei a maravilhosa aventura de um passarinho que dava seus primeiros voos para fora do ninho. Creio que ele era precoce, pois enquanto os outros ainda disfrutavam da proteção do lar, esse tentava todo desajeitado sair pelo mundo. Imediatamente busquei a mãe com o olhar e a encontrei um pouco mais adiante, parada em um galho mais acima, observando  o ninho e o aventureiro.

Essa cena ficou na minha cabeça por muitos dias, mesmo ainda tendo meu pequeno na barriga comecei a pensar no dia em que ele também quisesse sair do ninho e aventurar-se pela vida, assim como eu fiz, voando para tão para longe dos meus, e confesso que sofri um pouco.  No dia em que ele chegou, trazendo-nos um mundo totalmente novo, de desafios, de novas perspectivas, de luta diária, de contemplação das pequenas conquistas e de aprendizado na arte de viver cada dia como se fosse único, um pensamento me veio à cabeça, será que ele poderá um dia voar para fora do ninho?

Hoje, alguns anos depois daquele maravilhoso momento em que vi meu filho nascer, além de ter a certeza de que o voo é possível, luto para que ele tenha a possibilidade de escolher como e para onde. Essa tem sido minha meta desde que ele deixou o ambiente cálido e seguro de minha barriga, garantir-lhe autonomia, mas sempre respeitando seus limites.  Talvez esse seja um dos maiores desafios de uma mãe cujo filho tem necessidades adicionais, encontrar o equilíbrio entre incentivar, mas não sobrecarregar, cuidar, mas não superproteger, lutar e mesmo com as dificuldades não esmorecer, pois a tendência é deixá-lo para sempre protegido no ninho.

Hoje, nesse dia tão especial dedicado às mães, não poderia deixar de pensar na minha, que soube manter o ninho, mesmo depois de seus filhos voarem para tão longe, é nela que me acolho cada vez que o medo e a insegurança querem se aproximar e é nela que penso cada vez que minha filha me chuta e meu filho dá seus pequenos voos para fora do ninho. Nesse ano, pela primeira vez, me sinto como aquela mamãe passarinho que conheci há tantos anos em um parque de Londres, me vejo em um galho mais acima, com um olho no ninho e outro no aventureiro que mais e mais se aventura para fora dele.

 

 

 

 

Uma semana pra lá de intensiva.

Imagina um centro de terapia, localizado em uma pequena cidade da Floresta Negra e que trabalha em conjunto fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional, foi nesse lugar que Adam e eu passamos a última semana. O lugar era idílico, em um pequeno vale, cercado de montanhas com as típicas árvores que compõem a Floresta Negra, em cujos topos branquinhos ainda era possível visualizar os resquícios do inverno, localiza-se o edifício que mistura a típica arquitetura da região, com um toques de modernidade. Apesar do cenário, estávamos um pouco apreensivos, afinal alguns pais e profissionais do centro de intervenção precoce que nos assessora haviam comentado que as atividades eram demasiado intensas para pais e crianças, fui preparada para aprender muito, mas também para dizer um basta caso tudo fosse muito cansativo para Adam.

Eu sempre fui uma pessoa de escutar conselhos e opiniões, principalmente quando vindo de pessoas mais velhas e experientes, mas também tenho procurado observar muito até que ponto a opinião alheia não está refletindo uma realidade que não é a nossa. Muitas das críticas ao trabalho do centro de terapia partiram de familiares que não acreditam muito em terapias e em estímulos ou de profissionais que veem uma criança com SD como pertencente a um grupo que segue um modelo pré-estabelecido de dificuldades e limitações. Lembro-me da primeira vez que estivemos com uma das tantas fonoaudiólogas que conhecemos aqui (até encontrar uma que de verdade acreditasse no potencial do Adam) e em menos de 5 minutos de consulta já nos havia feito uma lista de pontos débeis do pequeno em função da T21, sem ao menos observar que falta de concentração, por exemplo, não é uma característica dele. Quando falamos do Centro a ela, foi como se tivéssemos falado em fazer uma visita a outro planeta.  Esses profissionais e familiares ainda acreditam que a escola especial é o melhor lugar para crianças com síndrome de Down, pois creem que eles são diferentes e não têm condições de aprender como e com as outras crianças.

Foi nesse contexto que comecei a investigar e cada vez pensar mais e mais em proporcionar essa experiência a meu filho e por meio da ortodontista que está colocando a placa palatina em Adam, recebemos uma indicação para a semana intensiva e lá fomos.

A semana foi ótima. Trabalhando de uma forma holística, interagindo terapias tradicionais e os  métodos Bobath, Castilho Morales, Padovan e “Neurofeedback” todas as atividades foram mais uma brincadeira que uma terapia para Adam. Os profissionais envolvidos também mostraram muito conhecimento, experiência e feeling para dialogar com Adam, o que me deixou bastante tranquila, pois sabia que nada seria forçado. Além disso, o contato com outras crianças vindas de diferentes lugares da Alemanha propiciou muita interação social ao nosso pequeno e pude perceber como ele tem maturidade para estar e brincar em grupo, mas isso é assunto para outro post.

O saldo foi super positivo e a bagagem veio cheia de novas ideias e um roteiro de atividades que mistura o lúdico com o terapêutico, complementando o trabalho que as terapias semanais vêm fazendo sem forçá-lo em demasia, sem deixar que ele viva essa fase despreocupada e maravilhosa da infância.

E para terminar, separei algumas fotos dar uma pequena ideia dos trabalhos da semana.

 

A criança e seus modelos de comportamento

Uma das coisas que mais falo para novas mães e pais de crianças com SD é: evitem comparações, entretanto eu mesmo cometi esse erro nos primeiros meses de vida do nosso pequeno. Lembro-me que logo após ele nascer o pessoal do departamento de intervenção precoce nos deu uma pequena apostila, uma espécie de guia, dividida por habilidades, na qual a gente podia acompanhar o desenvolvimento do bebê. Nesse guia havia uma tabela dizendo o que normalmente uma criança típica faz com determinada idade e também a média em que crianças com SD fazem. No começo eu levei isso a serio e toda semana lá estava eu fazendo apontamento e me angustiando, na minha concepção Adam sempre estava muito atrás das outras crianças e isso me deixava muito preocupada. Então um dia a TO que acompanhava Adam me disse, deixe isso para lá, eu sou contra esse material, cada criança é única, temos que observar os avanços do Adam tendo ele mesmo como ponto de partida, não outras crianças. E foi quando guardei o material num canto e passei a estimulá-lo e deixá-lo que ele se desenvolvesse a sua maneira. Desde esse dia prometi que nunca mais faria comparações, mas de vez em quando me pego cometendo esse deslize.

Outro dia fomos num encontro de familiares de crianças com SD, ao todo são oito crianças mais ou menos da idade do Adam. Durante o encontro uma mãe comentou que seu filho (uma semana mais novo que o nosso pequeno) já era um expert em aparelhos eletrônicos, já sabia qual controle liga a TV, qual liga o router, qual liga o DVD, já sabia colocar o DV e selecionar o canal para poder assistir ao que quer, já sabia marcar a pausa ou voltar para rever algo de que ele gostava. Fiquei maravilhada pelo menino, mas também fiquei receosa pelo meu filho, Adam sabe apertar o botão que liga a TV e o DVD, mas suas capacidades eletrônicas terminam aí. Não comentei nada com Habib, mas senti uma pontinha de angústia, será que estou estimulando Adam o suficiente? Fiquei com essa pulguinha atrás da orelha até chegar a casa, mas aí os afazeres de um dia que geralmente começa somente após o pequeno ir para a cama, me fizeram esquecer o tema, pelo menos naquele momento.

No dia seguinte, um frio e chuvoso sábado, pensei em que fazer para distrair Adam, já que o programinha tradicional dessas manhãs consiste em ir ao centro, tomar um suco ou café, comprar frutas e verduras no mercado de rua e o que Adam mais adora, ir à beira do rio para dar pão aos patos, mas com essa chuvarada teremos que mudar de planos, pensei. Após o café da manhã coloquei no meio da sala uma caixa com instrumentos musicais variados (alguns em madeira, outros em plástico, fomos adquirindo desde que ele nascera), pus para tocar um CD de musicoterapia que trouxemos de Londres e que é ótimo, pois trabalha muito sons e movimentos, e pensei em fazer uma music session. Assim que iniciamos a atividade o telefone tocou, deixei-o brincando e fui atender, era uma amiga e enquanto conversávamos percebi que Adam reconhecia cada instrumento que ouvia. Quando no CD vinha ruído de chocalho, ele pegava o chocalho, quando vinha som de tambor, ele pegava um tambor e tocava, de repente veio um solo de piano e ele pegou seu pianinho e começou a tocar, mas minha surpresa maior foi quando começou a tocar alguns instrumentos de sopro, clarinete e sax e ele soube exatamente qual era qual e mais, arrumava os dedinhos direitinho nos buraquinhos dos instrumentos. Nesse momento comecei a chorar, não só de emoção, mas de vergonha, vergonha por ter duvidado de sua capacidade, simplesmente porque ele não sabe operar um controle remoto. Mas como poderia, pensei naquele momento, ele raramente assiste à televisão e raramente vê seus pais assistindo, como ele saberia uma coisa dessas? Em contrapartida, Adam vê quase todos os dias seu pai tocando piano, sax e clarinete, ele frequentemente “toca” junto com o papai, ele frequenta um grupo de música para crianças e ele sempre escuta jazz, por que é nosso estilo de música preferido, e consequentemente seu ouvido está acostumado ao som de sax e clarinete.

Esse episodio me fez refletir, uma vez mais, em como a maternidade nos ensina, como apesar de tantas leituras, de tantas experiências, nunca estamos pronto, sempre haverá um momento de fraqueza, de incerteza, de angústia, mas também como saímos desses passos em falso mais fortes, mais preparados para o passo seguinte. Agora, mais do que antes, tenho a convicção de que ele está cada vez mais aberto para aprender, para copiar modelos, atitudes, para imitar o que ele vê ao seu entorno. Promover um ambiente cooperativo, saudável e feliz será talvez a melhor forma de fazer com que ele supere essa busca pelo padrão tão imposto pela sociedade na qual vivemos. Os desafios continuam,  e saber manter o equilíbrio entre o estímulo e a liberdade para que ele seja o que quiser ser, será fundamental para que ele se mantenha essa pessoa alegre, comunicativa e segura de si que já é.

 

Descricao da imagem: fotografia. Adam sentado, de calca verde e blusa azul, sorri e faz movimentos de bater palmas.

O maravilhoso caminho de gestar!

Descricao da imagem: cegonha branca carregando bebe com manto de cor verde.

Desde que Habib e eu começamos a falar em filhos a ideia de ter dois foi algo natural, afinal ambos tivemos muita alegria com nossos irmãos e queríamos proporcionar o mesmo para nossos filhos. Entretanto quando Adam nasceu com SD, uma pontinha de insegurança começou a crescer, e se o próximo bebê também tivesse a síndrome? Será que teríamos estrutura para cuidar dos dois? O nosso receio era que um dos nossos filhos não tivesse o apoio suficiente para se desenvolver e por essas e outras coisas deixamos aquele sonho guardado na caixa dos desejos.

Um dia, quando Adam acabara de completar um ano de vida, eu estava vendo fotos dos tempos de namoro e encontrei algumas que tiramos em Paris. Lembrei-me daquela viagem que por pouco não fizemos, pois eu estava com medo de viajar uma vez que na mesma semana um avião caíra na altura dos Pirineus em função de uma forte turbulência. Nós faríamos a mesma rota. Por fim meu marido conseguiu convencer-me de que a probabilidade de passar o mesmo era menor da que eu sair na rua e um avião cair na minha cabeça. Embarcamos, mas que viagem tensa! Primeiro o avião atrasou, ficamos quase uma hora dentro da aeronave esperando a decolagem, a informação era de que o avião tinha problemas na hidráulica. – Na hidráulica! Exclamou meu marido, e pela primeira vez vi preocupação em seus olhos. Resolvido o problema, assim que decolamos o piloto avisou que passaríamos por uma zona de forte turbulência e, portanto o serviço de bordo sofreria um atraso. Senti muito medo, pensava em como seria triste se nossa história, que havia apenas começado, terminara ali, nas mesmas montanhas que um dia aprendi a conhecer pelas palavras de Jose Saramago. Fechei os olhos e passei a viagem escutando as batidas do meu coração, eram tão fortes que não me permitiram escutar o aviso do comandante de que a zona de perigo havia passado (e que apesar dos prognósticos o voo havia sido super tranquilo) e o início da movimentação dos comissários de bordo havia começado. E mesmo escutando meu marido dizer que iria ao banheiro eu não mudei de posição, permaneci ali, imóvel, de olhos fechados e só os abri quando o avião aterrissou.

Quando recebemos um filho com uma deficiência, vem junto com ele um sinal de “apertem os cintos”, acho normal, ao sabermos que há perigo de turbulências no caminho, a questão é quanto deixamos de usufruir do voo, quando deixamos o medo dominar nossos sentidos ao ponto de não percebermos que apesar dos prognósticos, o caminho pode ser tranquilo e que turbulências são normais e não necessariamente terminam em tragédia. Na volta daquela viagem tive coragem de olhar pela janela e ver que lindo são os Pirineus visto de cima, imagem que eu não desfrutei na ida porque fiquei com medo das previsões. Olhando para Adam que brincava tão à vontade vi que maravilhoso era aquele filho e a vida que nos proporcionara, havia momentos difíceis? Sim. Turbulências fortes que nos prenderam por alguns momentos em nossos assentos? Também, mas além disso e com muito mais frequência aquele voo nos proporcionou ver o sol brilhando acima das nuvens e a possibilidade de chegar mais facilmente a lugares maravilhosos, nos quais nunca antes havíamos estado. Naquele momento pensei em que tanto temia? Ter outro filho tão adorável quanto ele? Será que desistir do sonho de ser mãe outra vez, por medo do caminho, não seria repetir o que fiz naquela viagem, tendo a certeza de que dessa vez eu não teria uma segunda oportunidade de apreciar a vista lá fora?

E foi aí que voltamos a pensar em um segundo filho, o sonho guardadinho lá na caixa dos desejos começou a criar asas e voltou a ser vivido, esperado e finalmente se tornou realidade. Em poucos meses teremos um bebezinho em nossos braços, a maravilhosa aventura de sermos pais novamente já começou e a cada dia nos faz reviver sensações já sentidas e nos proporciona novas experiências, afinal, agora a possibilidade de ter um novo bebê com trissomia 21 não nos assusta. Em função de minha idade nos foi oferecido o teste para detectar uma alteração cromossômica, aqui temos a oportunidade de fazer o não invasivo, entretanto optamos pelo não. Nada vai mudar o que temos, o que sentimos e o que queremos.

Hoje aquela foto do quartier Latin que me trouxe tantas belas recordações e nos fez voltar a viver esse sonho está em um porta-retratos, junto com as demais importantes da família. Cada vez que a olho penso em como foi linda aquela viagem, talvez a mais bonita do nosso tempo de namoro, momentos os quais eu poderia não ter vivido, apenas por temer as turbulências do caminho.

 

 

Descricao da imagem: foto noturna do quartier Latin em Paris.